Passei o final de semana refletindo e não consegui tomar
decisão nenhuma sozinha.
Consegui um horário com a psicóloga e depois de conversar,
pesar os prós e contras de cada opção, me decidi por fazer o procedimento cirúrgico.
Ela me falou de algumas perspectivas que eu não via. Perspectivas
novas que me fizeram de certo modo conseguir tomar a decisão.
Sob certa perspectiva, eu irei apenas induzir uma
menstruação. O que é uma menstruação? É a descamação da parede do útero. O
procedimento é exatamente para descamar a parede do útero... a diferença é que essa
descamação irá acontecer em um dia marcado.
Porque eu preciso ficar aguardando até três semanas pela "menstruação",
com o risco de ter alguma infecção, com o risco de não acontecer naturalmente e
ter que apelar mesmo assim para o procedimento cirúrgico?
Acho que posso me poupar dessa espera, porque ficar me
torturando? Eu não tenho mais sanidade mental, eu lutei o quanto deu. Fiquei em
repouso desde o dia que descobri a gravidez até o dia que detectaram que não
havia mais batimentos cardíacos. Lutei enquanto meu guerreirinho precisou de
mim, ele cumpriu a sua missão e se despediu. Ele foi forte, se desenvolveu e bateu o coração para mim. Eu pedi e ele escutou... Ele se despediu dois dias depois. Resistiu o quanto pôde, o tempo necessário para mostrar que tinha me escutado, mostrou sua persistência por mim. Por ele, eu serei forte, irei virar essa página e mostrar a minha persistência também.
Sob certa perspectiva, quanto mais rápido eu encerrar esse
negocio de descamação, mais rápido eu poderei voltar a tentar.
Liguei para o obstetra e está agendado para quarta. Até aí
tudo bem. O problema foi quando soube o local. O hospital maternidade em que eu
nasci e onde pretendia ter meu parto. Sabe, foi como se meu coração tivesse
parado de bater por alguns instantes e realmente deu muuuuita vontade de
desistir.
Ir logo para lá?
Depois eu tentei pensar que seria apenas um teste drive da
maternidade. Não é todo mundo que tem a oportunidade de testar o hospital
maternidade antes, né? Se vou fazer um procedimento cirúrgico, porque não
aproveitar e testar como é lá?
Será que a acústica de lá é boa? Será que escutarei o choro
dos bebês? Não seria tanta novidade assim, eu escuto todo dia. Alguém (não sei
se vizinho de cima ou de baixo) tem um bebê recém nascido que chora todos os
dias. Acho engraçado que Marido nunca tinha prestado atenção nisso até eu
falar. Acho que meu ouvido já está treinado para detectar choro de criança a
distância. =P
O obstetra informou que irá viajar quarta a noite (ou era
quinta?) e só irá retornar na próxima semana. Mas eu, com certeza, irei pedir o
contato de alguém para caso de alguma emergência. Sendo bem dramática, na pior
das hipóteses, eu posso ter hemorragia, não ter socorro a tempo e morrer. Vou
tentar não pensar nisso, afinal o ruim da morte é para os que ficam.
Vai ser melhor, irá terminar tudo isso mais rápido. Só um
dia na cama do hospital aguardando. Eu já passei tantos dias presa na cama de
casa aguardando... O que seria só mais um dia?
Talvez não seja tão ruim, talvez passe rápido, talvez eu
consiga dormir por lá e acorde só para tomar a anestesia e voltar a dormir.