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quinta-feira, 28 de março de 2019

O que descobri quando meu arco-íris chegou

Achei essa postagem no grupo do facebook: SobreViver: Apoio à Perda Gestacional ou do Recém-Nascido, que conta mais ou menos qual é a sensação que sinto em relação a essa gravidez e a perda do guerreirinho.

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O que descobri quando meu arco-íris chegou


Autoria: Taiane Solin - mãe da Ana, que partiu em 2013, e do Lorenzo, que tem 1 ano e meio



Imagem: Mulher grávida segurando arco-íris nas mãos, UA-pro / Shutterstock

Há 3 anos eu carregava uma dor imensa no peito. Uma saudade que tinha nome, sobrenome, algumas toalhas bordadas, mas que o cheiro, o rosto e a voz só existiam nos meus sonhos. Como minha menina foi esperada. Desde muito antes de engravidar, ainda na adolescência eu já sabia: Eu vou ter uma menina, que vai se chamar Ana Luiza. Quantas e quantas noites eu acordei de madrugada após sonhar com ela. Sonhos tão reais que seriam para sempre só sonhos. A Ana Luiza partiu com mais ou menos 15 semanas por um aborto mega traumático, com requintes de abandono, e violências obstétricas que me fazem suar frio só de me lembrar, mas que, independentemente de como o processo todo da perda se deu, ela foi embora e deixou no meu peito um vazio enorme, recheado com saudade dos sonhos que nunca vivemos, sentimento de injustiça e revolta.

Desde que a perdi escutei sistematicamente e de várias pessoas que, quando eu tivesse outro filho, eu esqueceria tudo o que me aconteceu. Em 2016, com faculdade concluída, num relacionamento muito bacana com um cara que acolheu a memória da minha filha como se fosse filha dele, eu já não aguentava mais carregar o pesado “colo vazio” e resolvi seguir o conselho das pessoas e “engravidar de uma vez”.

Para nossa surpresa tudo foi muito rápido. Enquanto com a Ana foram quase um ano de tentativas, na segunda gravidez foi no terceiro mês.

Mas, já de cara, percebi que as coisas não seriam tão fáceis. Junto com a alegria da notícia, me veio um sentimento que foi persistente por toda a gestação: o pânico. Todos os dias eu acordava em dúvida se meu bebê estava vivo, se estava bem e se assim permaneceria até o final do dia. Ao me deitar na cama, pensava que dormindo os medos desapareceriam, mas ele voltava em forma de sonhos e eu tive incontáveis pesadelos perdendo a nova gestação. Acordava aos prantos, com uma angústia sem fim.

Para me distrair, me cerquei de amigos e de familiares que não compartilhavam dos meus medos. Achava que, assim, eu não ficaria pensando nos riscos, e não alimentaria minha angústia. No entanto eu sabia e sentia que, por mais que eles quisessem me animar e me deixar bem, eles jamais entenderiam o que eu estava sentindo. E o fato deles minimizarem este sentimento, ou tentarem racionalizar meus medos, me deixava sentindo-me solitária e louca. De alguns até ouvi que meu filho precisava que eu pensasse positivo e fizesse tudo certo para que ele chegasse bem, mas qual garantia eu teria ao fazer isso que tudo daria certo? Enquanto eu esperava a Ana eu fiz tudo certo e jamais pensei que poderia perdê-la, e ela se foi.

A gestação pós-perda nos traz bem rente à pele um sentimento que já era conhecido ao perdermos nossos bebês. Por mais que tenhamos cuidado, façamos o nosso melhor e tomemos as melhores decisões, a realidade é categórica: Não possuímos o controle de absolutamente nada. A vulnerabilidade e o medo não são sentimentos facilmente maleáveis. Senti na pele o quanto a gestação do arco-íris foi muito mais difícil do que eu jamais imaginei.

Tive, então, a oportunidade de ter como companhia valiosa, no meu processo de gravidez pós-perda, outras mães de colo vazio do Sobreviver, além de acompanhamento psicológico ostensivo e um companheiro que diante do meu sentimento de vulnerabilidade dizia sempre: “Não importa o que aconteça, eu vou estar do seu lado.” Incrível como o fato de não estar sozinho torna nossa realidade mais leve.

Eram tantos sentimentos que me invadiam dia-a-dia, e tão difíceis de lidar. Uma hora era o medo de fazer enxoval e o bebê não chegar e eu precisar, de novo, me desfazer de tudo com meu peito sangrando. Outra, a sensação de estar traindo a memória da minha filha “colocando outro bebê no lugar dela”. Minutos depois a paranoia de medir pressão, glicemia, peso, ficar atenta se o bebê se mexe, se a calcinha está seca, se o corrimento está normal. Lembro-me que passei 9 meses tendo dores de cabeça diárias, mas sem contar para ninguém por medo que me dessem um remédio e ele fizesse mal para o bebê. E tudo isso intercalado por uma culpa enorme por não me sentir amando meu arco-íris, também tão querido e esperado, o suficiente. Eu não entendia que todo este meu medo era zelo por ele. Medo que ele fosse embora, de no final não o ter aqui comigo. O desejo de tê-lo em meus braços era tão grande que eu achava que morreria se ele não chegasse. Que sentimento poderia ser este senão o amor de mãe? E só eu sei quantas lágrimas foram vertidas até que eu pudesse perceber que minha realidade materna EM NADA se assemelharia à realidade das mulheres que nunca perderam seus filhos antes. E como poderia ser diferente, não é mesmo?

Apenas com 27 semanas, uma ficha caiu: as chances do meu bebê nascer agora e sobreviver são maiores do que os riscos dele nascer e morrer. Daí em diante, meus pesadelos começaram a diminuir e eu conseguia falar o nome do meu arco-íris de coração aberto. O Lorenzo estava chegando e, para mim, a cada dia ficava mais claro: ele vinha para tornar a nossa família, uma família com dois filhos. A primeira era e sempre vai ser a minha Ana, o segundo, meu Lorenzo que foi agraciado por um mero capricho do destino de nascer de 38 semanas, num parto dificílimo, de urgência, repleto de crises de pânico, onde eu oscilava a fé no futuro e a certeza de que ele morreria também.

E com meu filho no colo, os fiscais dos lutos alheios erraram de novo. Não só não esqueci da minha menina, como talvez nunca tenha pensado tanto nela como nos primeiros dias do pós-parto.

Ao pegar meu filho no colo me sentia roubada. Imaginava como teria sido pegar minha menina no colo, abraçar, beijar, amamentar. Meu Deus, como o Lorenzo era amado! Que benção era ter ele ali! E que pena que Ana não pôde conhecer o irmãozinho.

Nessa dualidade de sentimentos, mesmo com toda a terapia, rede de apoio médico, familiar, doula, fui reinvadida pela depressão. E ainda assim ajustamos a rotina, redividimos tarefas, voltei antes ao mercado de trabalho e fomos nos reconstruindo. Hoje, já é possível falar e compartilhar as minhas vivências com a perda e com meu arco-íris com a certeza de que não sou fraca por tudo o que senti, passei e vivi. Mas tudo isso contribuiu para que eu mesma me visse como mãe de dois filhos, mesmo que um deles não esteja presente.

A chegada do meu arco-íris mostrou-me que a Ana jamais voltaria. Além disso, que ninguém ocuparia o lugar dela. Pegar o Lorenzo no colo me esfregou na cara que a vida não parou enquanto eu chorava a falta da minha menina e que ela continuava. Que precisava continuar, mesmo que ela não fosse do jeito que eu queria, ou precisasse. E como doeu esse despertar de consciência.

A maternidade pós-perda nada tem da alegria, felicidade e inocência da gravidez anterior. O vínculo é construído dia após dia, semana após semana. Ela traz consigo a resiliência de compreender que para ver o arco-íris é preciso da chuva, mas não muda nosso desejo de que a chuva, no caso a perda dos nossos bebês, nunca tivesse ocorrido. Ela é uma bonita e dolorosa mistura do “que bom que desta vez meu bebê chegou bem” com ” como seria se meu outro filho estivesse aqui?”. Mistura esta que, no final, o bolo que me disseram que viria – um bolo cor de rosa, repleto apenas de alegrias, sem medo e que me fizesse esquecer de todas as dores que vieram antes – nunca chegou, e hoje tenho certeza de que nem vai chegar. Mas ainda assim, é uma alegria imensa poder chegar em casa, olhar para meu arco-íris e dizer: Que bom que você chegou. E ainda assim, que pena que sua irmã não está aqui.

Retirado de: https://www.gruposobreviver.com.br/depoimentos/bebe-arco-iris/o-que-descobri-quando-meu-arco-iris-chegou/

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Foi uma gravidez bem diferente do que sempre imaginei que algum dia teria. 

Eu estava feliz, mas também triste. Eu estava confiante, mas também assustada. Eu estava tranquila, mas também inquieta. Eu tinha esperança, mas também era pessimista...

Imaginei que quando ficasse grávida teria muita vontade de espalhar ao sete ventos a notícia. Não, não tive vontade de contar a ninguém. Imaginei que quando ficasse grávida faria chá para festejar. Não, não tive vontade de festejar com ninguém. Imaginei que faria mil e um planos. Não, não fiz planos nenhum, ia vivendo um dia de cada vez. Também cheguei a ter esse mesmo pensamento da moça da postagem "as chances do meu bebê nascer agora e sobreviver são maiores do que os riscos dele nascer e morrer". Mas, para mim, esse pensamento só veio as 34 semanas... tamanho era meu temor. 

Viajei para fazer enxoval, sei que é difícil de acreditar, mas eu não estava animada. Fui para me distrair, viajar. Comprei as coisas de bebê, mas foi tudo no automático.. com uma caneta e uma lista em mãos. Não houve aqueles momentos de suspiros escolhendo roupinhas e achando as coisas fofas. Não estava raciocinando direito. Tanto que cheguei de viagem e percebi que tinha deixado de comprar muita coisa essencial. Com 35 semanas fui montar a mala de maternidade e percebi que não tinha roupinhas com manga longa e pernas compridas para levar. Simplesmente não tinha... Não comprei nenhuma RN e nem P. Só havia comprado a saída de maternidade. Tive que correr atrás dessas roupinhas meio as pressas.

Não tinha vontade de ficar pensando sobre a gravidez, por isso as postagens se tornaram mais sucintas apenas descrevendo consultas e exames. Perdão, mas não conseguia pensar muito. Talvez de fato melhor fosse não pensar muito. Apenas ir vivendo.



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segunda-feira, 30 de abril de 2018

Para quem é mãe de anjo




Escrevo essa carta como quem entra para visitar a casa de um conhecido pela primeira vez. Pedindo licença, tirando os sapatos. Com o maior cuidado do mundo. Cuidado com o seu coração, com os seus sentimentos. Já entro te abraçando. 

Escrevo porque você me pediu. Vivo prorrogando fazer isso, simplesmente porque não me acho capaz de realizar. Eu disse várias vezes para você que eu não sabia se daria conta afinal, mesmo que eu me esforce muito, não consigo mensurar a sua dor. O seu sentimento de perda.


Fico aqui pensando nas inúmeras vezes que você deve pensar nos passinhos que não serão dados, nas gargalhadas que não ecoarão, nas palavrinhas erradas que não serão ditas, na vida que não irá florescer. 
Fico pensando na vontade que você deve ter de segurar ele no colo, abraçar, beijar, de dar todo o amor que foi obrigado a ficar aí guardado dentro do seu peito.


Penso, sinto e choro. Choro porque acho que se tem algo que não deveria existir na vida é uma mãe perder o seu filho. 


Aborto espontâneo? Bebê? Criança? Adolescente? Adulto? Não importa a idade, filho é filho em qualquer fase da vida, a dor deve ser igual. Só sei que não é justo, é desumano, não é o natural. 


Mas também penso nesse algo maior, gigante, que a gente não é capaz de entender. Acredito que se confiarmos Nele as coisas talvez, e só talvez (não estou na sua pele para saber) sejam um pouco menos doloridas de aceitar. Acreditar que cada ser tem o seu caminho e que Ele sabe o que é melhor para cada um de nós pode ajudar a cicatrizar a ferida, a dar paz. 


Mas o que eu queria te dizer com toda a sinceridade é que eu acredito piamente que existe um cordão invisível e eterno entre mães e filhos. Tenho uma certeza que não sei de onde vem, que todo o seu amor não foi e nunca será em vão. Seu amor nunca ficará guardado dentro do seu peito. Tudo de bom que você tem para passar para ele chega. Por isso acredite, onde quer que ele esteja será nutrido diariamente por esse amor tão seu, só seu por ele. 


Por isso não esqueça: mesmo não estando mais ao seu lado, ele precisa sentir que você está bem.
Texto: @maeforadacaixa 

retirado de: https://www.instagram.com/p/Bh91MpRHWIt/?taken-by=brenaf_maedamlaura

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

O que são bebês arco iris?


Bebês arco-íris são crianças que nascem de uma mãe que sofreu anteriormente um aborto espontâneo ou que teve um filho morto prematuramente, trazendo à luz após a tempestade na vida de uma família que teve de enfrentar alguns momentos realmente muito difíceis.

Para muitas mães que sofreram um aborto ou que tiveram que enfrentar a morte prematura de um filho, a chegada de um novo bebê é a luz que vem depois de uma tragédia, como o arco-íris que vem depois da tempestade.

Um arco-íris é uma promessa de sol após a chuva, a calma após a tempestade, a alegria depois da tristeza e a paz depois da dor, mas acima de tudo, do amor depois de uma perda.

A definição dos bebês arco-íris pretende lembrar a todos, mães, futuras mães, mas na verdade qualquer pessoa, de que depois da tempestade virá a luz. E mesmo que esta luz não venha com a chegada de um novo filho, esta luz virá de um jeito ou de outro, por força da natureza.


sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Querida mamãe de braços vazios,

Eu sei que você acorda todas as manhãs esperando que o episódio horrível que aconteceu tenha sido apenas um sonho ruim. Eu sei que você ainda sente seu bebê se mover, não importa se foram dias, semanas ou meses em seu ventre. Eu sei que suas lágrimas e pensamentos mantêm você acordada à noite. Eu sei que você despreza seu corpo por falhar com você e seu bebê. Eu sei que você se esquiva quando você ouve alguma mãe falar de sua gravidez ou do desenvolvimento de seu bebê. Eu sei que você chora no chuveiro para ninguém te ouvir. Eu sei que você só quer escutar alguém dizer o nome do seu bebê. Eu sei que você se odeia pelo ciúme que a consome quando você ouve falar dos bebês saudáveis ​​que nasceram. Eu sei que você quer engravidar novamente para fazer essa dor desaparecer. Eu sei que você não quer engravidar novamente, porque você simplesmente não poderia sobreviver a outra perda.
Eu sei.
Eu também sei que logo você vai adormecer sem lágrimas. Eu sei que você encontrará uma maneira especial de honrar a memória do seu bebê. Eu sei que você apreciará os curtos meses em que você esteve com seu bebê. Eu sei que um dia você terá palavras gentis e um abraço caloroso para ajudar outra mãe a enfrentar essa dor. Eu sei que você mostrará às suas amigas que o amor que você teria dado ao seu bebê, você dividirá com os delas. Eu sei que você vai rir novamente sem culpa. Eu sei que seu coração quebrado irá se recompor, não será o mesmo que antes, talvez até um pouco torto, mas será mais forte do que nunca.
Eu sei que você é uma mãe, uma mãe que ama seu bebê, mesmo que não o tenha segurado.
Com amor,
Uma mãe que sabe.
Kristin, originalmente publicada na momstown Edmondon."
Traduzido e Adaptado por Germana Barros

sexta-feira, 7 de abril de 2017

As pessoas fingem que se importam com fetos.


As pessoas fingem que se importam com fetos. Quando temos aborto espontâneo vemos que não’

por Kiwi Bertola

“As pessoas fingem que se importam com fetos. Isso é uma grande mentira, ninguém dá a mínima pra eles. A questão é que obrigar a mulher a ser mãe é uma forma de controle, e ter controle sobre as pessoas é bom. Ou você tem dinheiro (outra forma de controle) pra abortar seguramente ou morre, pois a morte também é… controle. É só isso. Eu perdi dois filhos: o Tomás, com quase sete meses de gestação, e a Amora, com três meses de gestação. Ninguém da minha família (fora eu e meu marido) conta essas crianças. Nossos amigos não contam essas crianças.

Pessoas que sabem que eu perdi meus filhos me perguntam quando serei mãe, porque, pra elas, ter engravidado e parido bebês mortos não me torna mãe. Só vale bebê vivo, aí você tem o aval, o carimbinho da maternidade.

Quantas mulheres que vocês conhecem sofreram abortos e perdas gestacionais? Quantas deram nomes a esses bebês? Cadê os túmulos desses fetos? Não existem. E nos atestados de óbitos estão lá aos montes: natimorto. Sem nome nem sobrenome. E quando tem atestado de óbito, porque uma gestação de três meses não te dá o direito de ter um documento desses.

Que sociedade cruel é essa que acredita que fetos são tão seres humanos quanto eu ou você e ao mesmo tempo não oferece um túmulo, um nome, um atestado de óbito? É porque de fato, lá no íntimo, ninguém acredita nisso.

Quando eu falo que sou mãe de dois filhos as pessoas acham que sou biruta. Estranham que dei nome pra Amora. ‘Mas você não perdeu com três meses? Porque deu nome?’

Perguntem às mulheres que perderam bebês quem se importou com eles. No hospital não queriam me deixar ver meu filho, pois ele era um feto (sim, foi isso que disseram).

A médica disse que não tinha problema se meu filho caísse na privada (onde me colocaram pra parir) porque ele já estava morto. É esse o respeito que um ser humano merece?

Quando fiz ultrassom pra ver se tinha de fato sofrido um aborto na gestação da Amora a médica me disse: ‘Que bom seu útero tá limpinho. Aquilo tudo já saiu, nem vai precisar de curetagem’. AQUILO.

Perguntem às mulheres que sofreram abortos espontâneos o tratamento VIP que tiveram no hospital. Nem consigo contar quantas vezes ouvi ‘Logo nasce outro’ (como se fosse fácil substituir pessoas) ou ‘Fica triste não, perder assim é normal’. Você fala assim de uma pessoa que perdeu um filho de 18 anos? Não. De um filho de 1 ano? Não. Mas de feto? Feto pode. Posso dar um milhão de exemplos de como a sociedade não considera fetos pessoas, tenham eles alguns dias ou 38 semanas.

Se ter filhos fosse absolutamente tão incrível e maravilhoso quanto a sociedade quer que a gente acredite, não tinha tanta criança abandonada no mundo! Só deve ser mãe quem quer. Homens já escolhem não ser pais por meio do abandono. Deixem as mães escolherem também, mas de uma forma mais digna que simplesmente virar as costas. Não sejam hipócritas.”

retirado de: http://azmina.com.br/2017/04/as-pessoas-fingem-que-se-importam-com-fetos-quando-temos-aborto-espontaneo-vemos-que-nao/

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Perda Gestacional :: Precisamos falar sobre isso...

O luto

Hoje completa exatamente um ano daquele fatídico dia (07.11.15) em que fiz um ultrassom e recebi a notícia que meu guerreirinho havia parado o coraçãozinho. E, no dia 11.11.15, me internei para fazer a amiu (curetagem por aspiração) e me despedir completamente do meu guerreirinho.

O luto/perda normalmente passa por 5 fases:



Fonte: Mundo da Psicologia

A negação e o choque - Surge a primeira fase do luto, é no momento que nos parece impossível a perda, em que não somos capazes de acreditar. A dor da perda seria tão grande, que não pode ser possível, não poderia ser real.

A raiva – A raiva surge depois da negação. Mas mesmo assim, apesar da perda já consumada negamo-nos a acreditar. Pensamento de “ porque a mim?” surgem nesta fase, como também sentimentos de inveja e raiva. Nesta fase, qualquer palavra de conforto, parece-nos falsa, custando acreditar na sua veracidade

A negociação– A negociação, surge quando o individuo começa a por a hipótese da perda, e perante isso tenta negociar, a maioria das vezes com Deus, para que esta não seja verdade. As negociações com Deus, são sempre sob forma de promessas ou sacrifícios.

A depressão – A depressão surge quando o individuo toma consciência que a perda é inevitável e incontornável. Não há como escapar à perda, este sente o “espaço” vazio da pessoa (ou coisa) que perdeu. Toma consciência que nunca mais irá ver aquela pessoa (ou coisa), e com o desaparecimento dele, vão com ela todos os sonhos, projetos e todas as lembranças associadas a essa pessoa ganham um novo valor.

A aceitação – Última fase do luto. Esta fase é quando a pessoa aceita a perda com paz e serenidade, sem desespero nem negação. Nesta fase o espaço vazio deixado pela perda é preenchido. Esta fase depende muito da capacidade da pessoa mudar a perspectiva e preencher o vazio.

As fases do luto, não possuem um tempo predefinido para acontecerem e nem seguem uma ordem predefinida, as vezes podem até se misturar e ir e vir. Depende da perda e da pessoa. Também não são todas as pessoas que passam por todos eles, alguns podem passar por todos e outros por menos, mas ao menos um será vivido.

Sabe-se que a que leva mais tempo é da fase da depressão para a fase de aceitação, algumas pessoas levam décadas de vida e outras nunca conseguiram aceitar com serenidade a perda. Acontece principalmente no caso de perda de um filho.

Muitas vezes outro estágio aparece, o da culpa, mas geralmente quando se passa por esses cinco a pessoa tende a visualizar uma melhora em seu processo e bane esse sexto estágio.



Lidar com perda é uma experiência humana, mas cada um de nós lida de forma singular. Só você sabe o que você passa, mas poder contar com o apoio dos outros faz com que esse tempo — que de certa forma temos que esperar passa quando perdemos alguém — seja um tempo ao menos com um bom colo pra deitar.

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Não estou mais de luto, mas não esperem que eu pare de falar sobre luto, perdas gestacionais, natimortos e tantas outras perdas... É preciso falar sobre isso! É preciso lutar contra a falta de empatia da sociedade, contra a falta de respeito aos sentimentos.

Não estou mais sofrendo, mas, lógico, a saudade sempre ficará e nenhum outro filho substituirá meu guerreirinho. Eles serão irmãos. Ele não deixará de ser meu filho por estar no céu.

Te amo, meu filho!!

sábado, 29 de outubro de 2016

O clube secreto e silencioso das grávidas que perdem seus bebês

Existe uma regra social: Precisamos superar a perda rápido. E não podemos sofrer.

Desabafo da jornalista Clarissa Cavalcanti, 32, dois abortos recentes, ao “Ser mãe”.

Sem receber convite eu entrei para um clube secreto de mulheres. Um clube que eu até já tinha ouvido falar, algumas pessoas da família e amigas participavam, mas que eu nunca soube muito a respeito. Depois que eu fui forçada a entrar, descobri que milhares de mulheres fazem parte, mas tudo é mantido meio às escuras. Eu entrei para este clube pela primeira vez em março de 2015. Foi quando tive meu primeiro aborto retido – aborto involuntário que acontece quando uma mulher não consegue manter a gestação. Não estou falando do aborto provocado, que é uma outra questão e eu particularmente acho que é caso de saúde pública e precisa ser discutida. Depois de nove semanas de gestação e curtindo muito a ideia de ser mãe descobri no ultrassom que meu bebê não tinha batimentos cardíacos. Tive que esperar uma semana para repetir o exame e ter certeza. Certeza de que meu tão sonhado filho tinha morrido muito antes de nascer. Foi a primeira tortura. Optei por esperar para ver se meu corpo agia naturalmente mas, como nada aconteceu, tive de fazer uma curetagem.

Nesse período de tristeza muita gente veio comentar comigo que tinha passado por algo parecido, que era comum. Gente que eu nunca imaginei que tinha enfrentado algo semelhante porque nunca demonstrou sinais do sofrimento que um aborto causa. E aí eu me perguntava: Se toda essa gente passou ou conhece alguém que passou por isso, por que ninguém fala sobre o assunto? Por que o aborto é tabu mesmo quando ele não é uma escolha da mulher? Todos falavam comigo como se estivessem compartilhando o maior dos segredos, como se fosse um crime ter perdido um bebê. Quem passou por isso sabe que os sentimentos de culpa, raiva, revolta e tristeza se misturam e demoram a passar. Descobri, graças às frases que ouvi, que existe uma regra social: a de que devemos superar rápido. Escutei coisas como: “Era só um feto!”, “A gravidez estava no começo, não precisa sofrer tanto!” Percebi também que há pessoas que comparam dores: “Pior foi o que aconteceu com a fulana! Seu caso não é nada!”, concluem, usando a própria régua para medir o sofrimento alheio.

Muitos profissionais não estão preparados para lidar com a mulher que acabou de perder seu bebê e até a acusam veladamente de ter feito um aborto proposital. Uma colega que também faz parte desse “clube secreto” me contou que que foi para o hospital quando sofreu o aborto em casa. Foi super mal tratada. Insinuaram que ela tinha provocado o aborto, fizeram perguntas duras e ela teve, mesmo que veladamente, provar que não, não tinha culpa pelo desfecho ruim da própria gestação. Imagine como se sente uma mulher que está perdendo o bebê que tanto sonhava, que precisa de atendimento e acolhimento e, em vez disso, tem de provar que não, a culpa não é dela. Uma conhecida me relatou que soube que tinha perdido o bebê em um ultrassom, perto dos cinco meses. O médico comunicou com uma frase seca: “esse bebê morreu”.

Comigo o tratamento não foi muito mais amistoso. A primeira enfermeira que me atendeu antes da curetagem deveria colocar um remédio via vaginal para amolecer meu útero e facilitar o procedimento. Ela o fez com tanta força, sem o menor cuidado e com tanta grosseria que dei um grito de dor. Fragilizada e culpada achei que era assim mesmo, frescura minha. Uma segunda enfermeira me mostrou que não, não era para ter sido feito daquele jeito. Ela me disse, indignada, que o procedimento deveria ter sido precedido por um gel, para não haver (mais) dor. Hoje penso que a primeira enfermeira acreditava que eu tinha provocado aquele aborto e que, por isso, merecia sofrer. O hospital também me internou no mesmo andar do berçário. Eu tinha acabado de perder um filho e via as plaquinhas com os nomes dos bebês na porta, que logo chegavam para serem amamentados, além de ver famílias felizes visitando os novos pais. Não seria isso uma violência psicológica? Como ninguém fala sobre isso, como é “normal” perder um bebê e há um silêncio sepulcral sobre o assunto, fica tudo por isso mesmo. Nossa dor não é ouvida. Sequer considerada.

Em novembro de 2015 descobri que estava grávida novamente. A felicidade voltou. Na primeira ultrassonografia ouvi o batimento cardíaco do meu bebê super forte, a barriga estava crescendo e eu não conseguia nem disfarçar a nova gestação. Estava confiante.

Um sangramento mudou tudo e perdi meu bebê novamente há alguns dias. De uma forma até mais abrupta ganhei uma segunda “carteirinha” e fui arrastada para o clube secreto novamente. No andar da maternidade tinha poucos bebês dessa vez, mas nunca vou esquecer a cena do pequeno Caíque sendo levado ao quarto para mamar enquanto eu passava de maca para a curetagem. Aquilo doeu. No pré-operatório a enfermeira me contou que, na média, são nove curetagens por dia. Fiz a conta e percebi que, só nesse hospital, são 270 mulheres passando por isso todo mês. Imagine quantas mulheres no Brasil todo. E mesmo assim continuamos sem falar sobre esse assunto.

Existe um outro clube secreto: o dos pais. E esse então é mais secreto ainda. O pai não tem vez nessa hora. Ninguém liga para o que ele sente. É quase impossível tirar algo positivo disso tudo. Talvez o fato de descobrir que somos mais fortes do que imaginamos. E que tenho amigos e chefes sensacionais.

Retirado de: http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/ser-mae/o-clube-secreto-e-silencioso-das-maes-que-perdem-seus-bebes/

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Perda Gestacional :: Documentário O Segundo Sol

Filme 'O Segundo Sol' dá voz ao luto de mães e pais que não levaram seus bebês para casa


Documentário quer "dar voz ao luto e apoio para mães e pais 
que passaram pela triste experiência de não trazerem seu filho para casa"

Apesar de 12% dos casos de gravidez no Brasil terminarem em aborto espontâneo, segundo a Federação Brasileira de Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), pouco se fala sobre o luto e a dor dessas famílias. O tema é tão invisível socialmente que é comum mãe e pai que perderam seus bebês ouvirem como consolo “daqui a pouco vem uma nova gravidez”. Mas você se imaginaria dizendo algo parecido para alguém que perdeu um filho ou uma filha em um acidente de carro? A invisibilidade do luto decorrente de uma perda gestacional se dá por que, socialmente, não se reconhece a existência de um bebê que morre na barriga, que nasce morto ou pouco depois de a mulher dar à luz. Serviços e profissionais de saúde, assim como pais, amigos e familiares, não estão preparados para lidar com o sentimento que assola homens e mulheres que vivem a expectativa da vida, mas têm que lidar com a morte.


"Eu quero parir essa perda. Quero me despedir do meu filho". 
A frase foi ouvida pelo publicitário Fabricio Gimenes, 25 anos, logo após ele e a esposa, a modista Rafaella Biasi, 33 anos, descobrirem que o filho Miguel estava morto dentro do útero da mãe. O casal que vivia o final da 40ª semana de gestação acabara de chegar ao consultório do especialista que acompanhava aquela gravidez. Rafaella já estava com 4 cm de dilatação, sentia as primeiras contrações e se preparava para um parto normal. Após uma gestação inteira sem nenhuma intercorrência, mas muitos planos e sonhos para quando chegasse o irmão de Cecília, de 12 anos, o casal foi surpreendido pela morte quando, na verdade, esperava pela vida. (Na foto de Eliza Guerra, Rafaella Biasi e Fabricio Gimenes, autores do documentário 'O Segundo Sol')

“Dar voz ao luto e apoio para mães e pais que passaram pela triste experiência de não levarem seu filho para casa” é a forma como Fabricio e Rafaella resumem o trabalho que foi produzido totalmente de forma independente. Com duração de 62 minutos, a narrativa é conduzida pelo relato de cinco famílias que perderam seus filhos e filhas em fases diferentes da gestação, diálogos com profissionais da área da saúde e questionamentos sobre a vida, nascimento e morte.

Rafaella Biasi revela que a escolha do nome O Segundo Sol partiu da vontade de tratar de um tema profundo e complexo, mas com esperança. “É com esse abrir da janela depois do período do luto que conseguimos ver beleza nas coisas. No momento de luto estamos tão acolhidos na dor que nem abrir essa janela queremos, e o dia pode estar muito bonito, mas nossas lentes estão em preto e branco. A luz é também uma analogia a iluminação do tema perda gestacional e neonatal. Tirar o tema da obscuridade e jogar essa luz através de histórias reais, de pessoas de carne e osso que assim como eu e Fabricio, também têm uma história de perda e amor para contar”, explica.

É importante falar da dor
Psicóloga especialista no atendimento a mulheres que sofreram perdas gestacionais ou neonatais, Renata Duailibi ressalta a importância de dar visibilidade a essa pauta: “Acho importante a divulgação do "lado triste da maternidade". Falar sobre as perdas, a dor, o luto. O trabalho com casais enlutados é sempre um desafio. Um convite à superação. Uma aposta na capacidade do ser humano em transformar a dor em alguma outra coisa”. 


A especialista também é uma das coordenadoras do grupo “Por que partiu tão cedo”, espaço para as famílias enlutadas dividir histórias e compartilhar o sofrimento, na busca de conforto e solidariedade. O grupo foi fundado há dois anos pela doula Bel Cristina. Além dela e de Renata Duailibi, é coordenado também pela médica e psicoterapeuta Ana Lana. A iniciativa começou pelo Facebook, mas são realizados encontros mensais em Belo Horizonte.


Uma das histórias retratadas no filme é a de Daniela Andrade Schneider, mãe de Theo, que fala sobre a importância de frequentar um grupo de apoio. Segundo ela, “os encontros presenciais foram experiências intensas e maravilhosas. Cada lágrima e palavra ali compartilhadas eram preciosas e preenchiam de alguma forma um vazio desse luto tão delicado e particular. Me senti privilegiada por fazer parte do grupo, pois a maioria das pessoas prefere negar a tocar no assunto da perda gestacional ou neonatal. Juntos somamos experiências de dor, amor, alegrias e tristezas, dando um novo significado a vida sem nossos filhos tão queridos e amados”.


Empatia

Recentemente uma parceria entre o Famílias em Tiras e as páginas Do Luto à Luta Temos que falar sobre isso lançaram uma campanha de sensibilização à perda gestacional e neonatal. Tirinhas de conscientização foram idealizadas e mostram como as famílias vivenciam e como gostariam de vivenciar o apoio a uma perda gestacional ou neonatal. 






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domingo, 24 de julho de 2016

Perda Gestacional :: Cinco verdades sobre o luto

Fonte: http://www.brasilpost.com.br/camila-goytacaz/cinco-verdades-sobre-o-lu_b_7967168.html?ncid=fcbklnkbrhpmg00000004



Conheça para oferecer apoio a quem vivencia
No dia 4 de junho deste ano me vesti com uma roupa que gosto muito, me despedi dos meus dois filhos, de seis e três anos, deixando-os aos cuidados dos avós, para cumprir uma missão inédita, difícil e, ao mesmo tempo, muito especial: dar minha primeira palestra sobre luto perinatal.
Escolhi contar aqui cinco percepções que, durante a minha fala na palestra, senti como realmente relevantes para quem está próximo de uma família que perdeu (um bebê, neste caso, mas vale para outras perdas) - e quer oferecer apoio.
Estas são algumas das questões que surgem: como acolher a pessoa que perde? Como fica sua rotina? O que machuca? O que ajuda e o que atrapalha? Que recursos ela pode usar para se restabelecer? Principalmente - o que os profissionais que a acompanham - sejam médicos, doulas, pediatras, terapeutas, podem fazer para que ela se sinta melhor?
Nesta palestra, o foco foi na perda perinatal e uma terapeuta especializada me deu apoio durante a explanação, fazendo importantes considerações do ponto de vista profissional sobre as particularidades do luto para a mãe durante o puerpério. Mesmo que não se trate de um bebê, vale refletir para entender como é aquilo que eu chamo de 'travessia do deserto do luto'.
1) O luto é cheio de perdas
Comecei a palestra dizendo como aquilo era novo para mim. Como jornalista e Consultora de Comunicação, há mais de quinze anos palestras, cursos e workshops fazem parte da minha rotina profissional. No entanto, desta vez, o tema envolvia minha vida, meu luto, meu livro Até Breve, José. Senti medo de não dar conta. Vesti a coragem (assim como cito no livro) e com o coração aberto, falei deste e de tantos outros medos que José me trouxe. Falei também da superação, contando a minha experiência com o filho que perdi.
Muitas vezes a mulher que perde um bebê (seja aborto, perda intraútero, óbito fetal ou perda perinatal) acaba experimentando outras perdas sequenciais. Há um afastamento dos profissionais que a acompanhavam e os conhecidos repentinamente a evitam - representando assim abandonos. Os amigos se afastam e ela não pertence mais aos grupos de antes. Dói demais! Por isso, é preciso fazer o possível para oferecer acolhimento, proximidade, atenção e carinho a quem perde. No caso da mãe e bebê, muitos se concentram no bebê que partiu ou no fato ocorrido e deixam de olhar para a mulher que ficou. Por favor, cuidemos desta mãe!
2) O luto é lento
Há uma grande pressa em resolver tudo e "sumir" com aquela história, dando um fim aos 'rastros' do bebê, como o enxoval ou retomando rapidamente as atividades rotineiras. Vamos com calma! Os objetos representam o filho que perdemos e tornam-se amuletos e memórias para a mãe, por isso é preciso tempo para que ela possa escolher o que e como quer manter. É reconfortante reconhecer a importância destes símbolos e é preciso deixá-la à vontade para seguir seu ritmo com a retomada da rotina.
Respeitar o tempo da pessoa para elaborar, considerando que o processo não é linear (ora melhor, ora pior) deixa a travessia um pouco mais leve.
3) Seja solidário de verdade
Esqueça os protocolos, ofereça apoio sincero. Há uma total incapacidade de nossa sociedade de lidar com o luto e com os enlutados, por uma grande falta de sensibilidade que se aloja em dois extremos: o das pessoas que simplesmente silenciam e o das que falam demais. Os profissionais podem - e devem - seguir uma conduta humanizada especialmente no momento da despedida e das más notícias e os amigos e familiares podem chegar mais perto! Embora seja uma experiência particular para cada pessoa, todas precisam ser acolhidas e respeitadas em seus processos. Para mim, o não-falar e o afastamento estão relacionados ao medo do outro em lidar com a nossa dor. Todos, todos mesmo, têm alguma experiência com perdas ou superação de dificuldades, seja de que ordem for. Quando eu falo da minha dor e da minha história, acesso a dor e a história de cada um. Juntos podemos (e conseguimos) visitar também a força do amor e da fé na vida que nos resgata do fundo do poço.
4) Mais leveza, por favor
Nestes quatro anos lidando com o tema, já coleciono centenas de histórias, completamente variadas em contextos, enredos e finais, inclusive algumas terminam bem ( ☺) mas todas trazem algo em comum: nos lembram de nossa fragilidade perante a morte e de nossa força perante a vida. Em alguns momentos da palestra, involuntariamente, arranquei risadas da plateia. Foi muito bom! Por isso, vale lembrar: o luto é triste, mas não precisa ser tão pesado. Há espaço para a esperança, para o riso e até para boas descobertas. No fundo, é um processo engrandecedor.
5) Precisamos ler, falar e ouvir sobre luto
Em meio a um fluxo contínuo de palavras que saíam da minha boca, de repente percebi que o auditório inteiro chorava. A emoção coletiva me mostrou algo que eu não esperava: houve um tempo em que achei que as pessoas não gostariam de ler ou ouvir sobre luto e sobre morte. Eu estava errada! Neste dia, em minha primeira fala sobre este tema árido, eu vi um solo fértil. Tive certeza de que, não apenas as pessoas querem ouvir, como também precisam muito, muito mesmo, de um espaço para falar. A palestra terminou com um auditório emocionado, sorrindo e chorando.
A lista de interessados em fazer perguntas ou compartilhar depoimentos e as abordagens que recebi pelos corredores depois do encontro me confirmam que é preciso falar abertamente sobre luto. Só assim vamos quebrar os tabus, tirar as cascas, deixar nossa prepotência de lado, sair do piloto automático e da cultura da falsa felicidade para então, quem sabe, entrarmos dentro de nós mesmos, naquele lugar que parece tão escuro, mas que na verdade é especial, porque nos oferece oportunidade de evolução e nos torna mais próximos uns dos outros, por meio da dor e da superação.
Precisamos falar sobre luto. Hoje e sempre.

domingo, 5 de junho de 2016

Perda Gestacional ::

A perda gestacional é uma perda real e uma dor imensa: não a subestime Mulheres que perdem seus filhos em algum estágio da gestação recebem menos compaixão do que uma mãe que perde o filho depois do nascimento.




Nenhum luto é comparável ou pode ser classificado em alguma hierarquia (embora a nossa sociedade faça isso o tempo todo). Mas dá pra dizer entre os lutos que são subestimados ou impedidos de serem chorados, a perda gestacional, precoce ou tardia, é particularmente cruel.

Se você quer ajudar alguém que sofreu uma perda gestacional, a primeira coisa, portanto, é não subestimar a sua dor. Ela é tão grande, acredite, como a de uma mãe que perde um filho depois do nascimento. A partir dessa premissa de respeito e empatia as atitudes positivas em direção dos pais que sofreram a perda devem ser equivalentes às que você dirigiria a uma mãe ou pai que perdeu um filho já nascido.

– Não subestime a dor da perda gestacional.
– Não aja, em relação à mãe ou pai enlutados, como se nada tivesse acontecido.
– Não diga que “eles ainda terão outros filhos”.
– Não pergunte se eles “já começaram a praticar”.
– Se o bebê já tinha um nome, refira-se a ele pelo nome ao manifestar seus sentimentos.
– Pergunte se pode ajudar de alguma forma.
– Se a pessoa quiser falar sobre o assunto, esteja preparado para ouvir.
– Se houver um funeral como no caso das perdas tardias, não pense em faltar (você não faltaria ao enterro de uma criança já nascida).
– Em suas conversas com a família evite culpar a equipe médica, o hospital ou a forma de parto escolhido ou qualquer coisa que só agrava o sofrimento.
– Evite indicar novos profissionais para “a próxima vez”.
– Não diga para a mãe ou pai que eles têm que superar rapidamente.
– Permita que o casal tenha seu tempo de luto. Não existe um limite ou uma regra de normalidade para a tristeza passar.

Existem grupos de apoio à perda gestacional e neonatal, como o Do luto à Luta que reúne depoimentos de quem vive ou viveu esse drama e informações e orientações úteis e inspiradoras para ajudar os pais nesse momento. Para entender o que se passa no coração de uma mãe que sofreu uma perda gestacional entrevistei uma amiga querida, a editora Clarissa Oliveira, que no ano passado perdeu seu primeiro filho, o Martin, com 40 semanas de gravidez.

O que, além da dor da perda, foi mais difícil para você, seu marido e família, ao enfrentar o drama da morte do filho antes do nascimento?
O mais difícil foi entender “quem eu era” depois da morte do Martin e voltar à vida com essa nova identidade, essa trágica história para contar. O primeiro mês, apesar da dor imensa e da saudade infinita, foi mais tranquilo, pois me permiti ficar protegida, cercada somente de pessoas mais próximas, e sentia muito amor e muita gratidão por ter vivido com ele, mesmo que por tão pouco tempo. Mas ter de enxergar o “horror” das pessoas ao se defrontarem com a minha perda me assombrava. No fim das contas, acabou sendo menos terrível do que na minha fantasia.
Para o meu marido e a minha mãe, a sensação de injustiça foi muito ruim. Como eu já havia lidado com a indignação do “por que eu? Por que comigo” antes (já que passamos por uma série de tratamentos para engravidar), eu não tinha essa expectativa de justiça, então fui poupada desses pensamentos torturantes.

Os hospitais estão preparados para oferecer acolhimento e respeito nessa situação?
Fui atendida numa maternidade particular por uma equipe humanizada (composta por obstetra, assistente e anestesista), além de contar com a presença do meu companheiro, duas doulas (profissionais voltadas para o apoio emocional do parto e puerpério) e a minha mãe. A indução ocorreu num quarto escuro e silencioso e eu pari no centro cirúrgico, onde me permitiram ficar quase uma hora com o meu filho. Considerando outras histórias que ouvi, acho que fui privilegiada. Tive o parto normal que eu quis, sem lacerações nem violência obstétrica, e tive um momento íntimo com o Martin e o meu companheiro. Limpei, beijei, vesti e conversei com ele. Foi o momento mais sublime da minha vida.

No entanto, gostaria de ter tido a oportunidade de passar mais tempo com ele – de levá-lo para o quarto, por exemplo, em vez de me sentir pressionada para liberar a sala de parto no centro cirúrgico. Também me foi oferecido um remédio para secar o meu leite, que recusei. Gostaria que tivessem me perguntado sobre isso, porque se eu não fosse uma pessoa questionadora e desconfiada, teria tomado o remédio e me privado do processo de produzir, ordenhar e doar leite, que foi primordial no meu processo de cura.

O que, entre a rede de apoio de amigos e familiares, ajudou vocês?
A “blindagem” que a minha família, meus amigos, minha equipe no trabalho e minha doulas fizeram foi essencial naquele primeiro momento. As mensagens de amor e a presença no enterro (e depois) também foram muito importantes. Faço análise e foi ótimo já ter uma relação estabelecida com um profissional ao invés de buscar ajuda de um estranho. Depois de um mês, mais ou menos, busquei contato com pessoas que também passaram pela perda gestacional ou neonatal e sensação de não estar só foi reconfortante.

O que não ajudou?
A falta de contato de alguns amigos e a culpabilização não dita – porém evidente – de alguns parentes. Embora eu entenda a dificuldade dos outros em lidar com esse tipo de tragédia, e compreendo que nomear um culpado seja inevitável para alguns, eu esperava mais empatia e presença de algumas pessoas.

O que você gostaria de dizer (ou fazer) a alguém que vivesse a mesma perda?
Gostaria de dizer que eu sinto muito, que estamos juntos. Gostaria de perguntar e dizer o nome do bebê que morreu, e responder com o nome do meu filho. Eu me colocaria à disposição e, caso a pessoa quisesse, indicaria grupos de apoio virtuais ou presenciais. Diria que o amor é infinito, mas a dor é imensa, e pediria que eles se dessem a permissão de senti-la e viver o luto.

Você buscou ou busca alguma ajuda terapêutica especializada?
Eu já fazia análise há anos e continuei com o mesmo analista, que segue a linha junguiana. Fui a um encontro de um grupo de apoio para perdas gestacionais na minha cidade, e foi bom, mas não retornei porque preferi trabalhar o meu luto no meu tempo, de forma mais individual. Mas foi importante ter ido e me conectado com as pessoas, e indico o grupo para quem passou por uma experiência parecida.

Como foi a sua volta ao trabalho? Há algo que você sugeriria nos ambientes de trabalho para ajudar quem passe por uma perda como a sua?
Foi difícil. Eu pedi para voltar antes de terminar minha licença, num esquema de 3 dias por semana. Eu queria “voltar logo”, como incentivavam todos, mas tinha medo de enfrentar “o mundo real”. Meu ambiente de trabalho é muito acima da média. A equipe é muito acolhedora e a empresa é nota dez. Mas foi doloroso, em especial porque alguns colegas não souberam como tocar no assunto e optaram por ignorá-lo completamente. Teve dia em que eu chorei na mesa do computador ou no banheiro e tudo bem, houve compreensão. O que eu acho importante é que o assunto não vire tabu e que não seja ignorado.

Você sente que a perda gestacional é subestimada pela sociedade de uma forma geral?
Sim e não. A minha perda foi uma perda tardia. Eu estava prestes a completar 40 semanas. Não acho que ninguém subestimou a minha dor. No entanto, como o bebê não existiu para muita gente, a reação é como se fosse a dor de uma frustração, e não a perda de uma pessoa real. Isso é muito difícil, porque ouvi coisas como “logo vocês engravidam de novo” e teve parente que nunca falou o nome do meu filho (inclusive cogitaram não ir ao enterro porque tinham “cirurgias marcadas naquela hora”, o que certamente não teriam dito se fosse o enterro de uma criança que chegou a viver fora do útero). A percepção de que o meu filho não existiu para o mundo é terrível. Nesse sentido, eu acho que é uma perda subestimada. Por outro lado, “perder um filho”, no nosso imaginário, é o pior que pode acontecer com uma mulher, então, de certa forma, é até superestimado.

De que forma você acredita que as pessoas poderiam se solidarizar mais e compreender melhor quem passa por uma perda gestacional?
Acho que a empatia é a solução para quase todos os males. Acredito que a única forma de conseguir se solidarizar é se permitir ficar numa situação de desconforto. Sentir a dor junto. Mas esse discurso não combina com os valores do nosso mundo imediatista e “anti-dor”. Portanto, se não for possível se colocar nesse lugar terrível – o que eu entendo–, pelo menos há de se fazer um esforço para não negar ou exacerbar a dor do outro. Alguns pequenos gestos fariam toda a diferença: não fingir que não aconteceu, não comparar dores ou perdas, não apressar o luto, olhar no olho e, sobretudo, dizer o nome do falecido. Há muito poder num nome.

Perda Gestacional :: Perda de bebês

Texto compartilhado no facebook "Arca da Imaginação" 

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PERDA DE BEBÉS

Maria e João são um casal, que têm uma filha e um filho, porém, a filha é de um jeito diferente, eu vou contar a história deste casal:

Aos seis anos Maria e João conheceram-se, e começaram a sentir-se apaixonados um pelo outro aos sete anos, e com 7 anos e meio começaram a namorar. Agora têm 45 anos, mas tiveram sempre a ideia de ter um filho. E, finalmente, Maria estava grávida aos 32 anos.

Quando ia fazer as ecografias, a médica dizia que estava tudo bem com o bebé. Numa ecografia, soube-se que era menina. Maria e João ficaram logo contentes, eles SEMPRE quiseram ter uma menina.

Naquela altura trabalhavam muito, porque, João tinha que ganhar dinheiro para roupa e bonecas e Maria costurava algumas saias, e de vez em quando ia às compras, comprava biberões, chuchas etc.

Fizeram tudo, já tinham mais de cem roupas prontas, um quarto, bonecas, até que na ÚLTIMA ecografia, Maria e João ouviram a frase mais chocante da sua vida:

- Lamentamos muito, mas a sua filha faleceu!

Uma simples frase, só que muito chocante.

Maria e João ficaram devastados,

Maria teve que fazer um parto normal e no fim ver a sua filha nascer morta.

Pouco tempo depois, começaram a ouvir aquelas frases tão desagradáveis.

- Ai já passou! Esquece! Era só um feto! O que interessa são os vivos! Não te lamentes assim: bla bla bla.

MORREU! Não existe! MORREU, PONTO FINAL!- Diziam os outros.

O luto que passaram pela morte de Mariana (filha de Maria e João) foi bastante doloroso.

Eles não perderam um feto, mas sim uma filha!

Maria e João tiveram que lutar contra o luto e contra as pessoas, foram dando pequenos passos, sempre em frente e não dando importância às opiniões dos outros.

Maria engravidou novamente, ainda com o luto. Maria e João achavam que o bebé também ia morrer.

Era um menino, e… nasceu com vida! Apesar de outro filho, Maria e João nunca esquecerão a sua filha. Conseguiram vencer o Luto, agora é só tristeza de vez em quando.

Eles sempre serão pais de 2 filhos, a Mariana e o Rodrigo.

Maria e João decidiram falar de Mariana ao Rodrigo e foram criticados por isso.

As pessoas não sabem o que dizem, porque não sabem o que a Maria e o João sentem no fundo.

O que as pessoas também não sabem, é que, Maria, João e Rodrigo são felizes à maneira deles.

Na casa deles vivem 4 corações, mas só eles é que veem e sabem.

O que eu acho:

Perder um filho na barriga é uma coisa que dói muito, as outras pessoas pedem para esquecer.

Eu sei, porque perdi uma irmã. Ela tem 10 anos e vive no Céu.

Aconteceu aos meus pais o que escrevi na história, mas acho bem eles nunca se terem calado e me terem contado da mana.

Dizem que quando morre um bebé, perde-se. Eu acho que se ganha.

Os meus pais e muitos outros pais, ganharam um filho, embora não viesse com vida.

Eu tenho 9 anos e sei disto tudo. Pergunto porque os adultos não entendem se é tão simples.

Peço aos adultos que respeitem os pais que ganharam filhos no céu.

Dedico esta história a todos os pais que perderam um filho, a todos os irmãos que perderam irmãos, aos meus pais e, especialmente, à minha irmã Mónica.

sábado, 4 de junho de 2016

Você iria nascer...esta semana




Eu poderia encher as redes sociais com imagens belas e alegres. Mas como eu posso fazer isso se meu coração está tão triste? Devo fingir que estou feliz? Devo fingir que tudo está bem? Devo fingir que não tenho saudade do filho que estaria nascendo esta semana, dia 04? Devo fingir que não tenho medo do futuro e suas tantas incertezas? ... Sim, estou triste. Talvez melhore... algum dia.